Terça-feira
à tarde, dia de outono, ela caminhava distraída pela avenida mais movimentada
do centro. Os fones no ouvido lhe
transportavam para outra dimensão, sorria sem perceber. Em meio ao aglomerado
de pessoas daquela estreita calçada, sentiu alguém a lhe tocar os ombros. Um
toque suave, porém decidido.
Deu
a volta no automático, para resolver logo aquilo e voltar para seu mundinho
particular. Que surpresa! Sua boca se entreabriu ao mesmo tempo em que seus
olhos tentavam assimilar o que viam. Era Ele. Depois de tantos meses, ela até
perdera a conta, Caetano ressurgirá; ao acaso, sem avisar.
Ele
a encarava sem desviar o olhar, sem se concentrar em outra coisa, como se
pretendesse hipnotizá-la. Ela também o observava. Percebia como sua barba havia
crescido; como seus cabelos estavam rebeldes; como sua pele estava sem brilho;
e seus olhos... Havia algo de diferente em seu olhar; algo que ela não sabia
dizer.
Caetano
a cumprimentou com simpatia e convidou-a para tomar um café. Ainda ser crer em
quem via à sua frente, ela aceitou. Enquanto caminhavam, Lucia pensava nas perguntas
que sempre se fizera: Por que ele não dera notícias? Aonde andava? O que tinha
feito? Será que sentira saudades? Mas quem começou a falar foi ele.
Com
uma voz que beirava a animação – e parecia mais fraca do que Lucia lembrava –
ele contou-lhe para aonde tinha viajado e quais lugares havia conhecido. Falou
das diferentes pessoas com quem conviveu, os rituais que havia praticado, os
hábitos que havia mudado e as coisas incríveis que tinha descoberto. Mas,
apesar de toda a empolgação, ela sentia que não era aquilo que ele gostaria de
contar.
Sentaram
a uma mesa; ela pediu um cappuccino e ele um café forte sem açúcar – seu
predileto, ela sabia. Quando a garçonete se retirou, um silêncio instaurou-se
entre os dois. Apesar das inúmeras dúvidas acumuladas com o tempo, Lucia não
sentia vontade de perguntar-lhe nada. Ela mesma se surpreendeu; era como se
aquelas interrogações todas não fizessem mais sentido.
Por alguns minutos seus olhares se atraíram.
Dançaram juntos num ritmo lento. Ele a sugava com o olhar como se estivesse com
sede. Ela sentia. Mantinha seus olhos fixos nos de Caetano e percebia sua
ânsia. Sua vontade sempre presente. Mas era mais do que isso. Por trás daquele
olhar insano que a invadia e a atormentava, existia solidão. Havia um enorme
vazio que não estava ali antes; ou, talvez, ela nunca tivesse prestado atenção
o suficiente.
Quem
quebrou o silêncio mais uma vez foi Caetano. Com o olhar fitando o nada, ele
lhe contou sobre seus empreendimentos, seus sonhos. Revelou o quão longe tinham
ido seus projetos e quanto lucro lhe haviam gerado. E, depois, como o haviam
frustrado. Suas ambições eram grandiosas, mas faltou prudência. Faltou ouvir
aos conselhos de quem sempre lhes quis bem.
Lucia
ouvia a tudo boquiaberta. Custava a assimilar que aquele homem tão convicto, tão
cheio de si sempre; estava ali, à sua frente, a lhe confessar erros e fracassos;
a expor suas fraquezas e humanidade. No final, Caetano ainda disse que tudo havia
valido a pena, apesar dos pesares. Mas Lucia já decifrara seu olhar e estas
últimas frases não a convenceram.
Ele,
então, respirou fundo, voltou a fitar seus olhos verdes com intensidade e, com
um sorriso discreto, perguntou como ela tinha estado. Lucia demorou dez
segundos para pôr as ideias em ordem. Quando raciocinou tudo, suspirou, sorriu
e disse “Bem.”.
-
Quando você partiu precisei ocupar meu tempo com outras coisas. Então, comecei
aquelas aulas de teatro que sempre quis fazer e vivia adiando, lembra? Ah,
também redecorei o apartamento, ficou mais colorido, muito mais leve. Comecei a andar de bicicleta e semana passada
mesmo participei de uma maratona. Pena que cheguei em 101º (risos). Também
conheci o Chile nas férias, nossa, foi incrível!
E
Lucia tagarelava sem parar. Olhava pro nada, lembrava-se de algo, ria e
repartia sua recordação. Seus olhos brilhavam com fervor. E Caetano recordou-se
o quanto era bom estar com ela. Sabia que precisava encontrá-la. Sabia que precisava
vê-la. Algo dentro de si lhe dizia isso; só não sabia direito o porquê até
então. De repente, tudo se tornou claro
à sua frente: A simples presença dela o inspirava; passava-lhe segurança e
conforto. Era algo maior do que pudesse explicar.
E,
num ímpeto de sentimento, Caetano a interrompeu e declarou-se. Confessou que sentia
sua falta, que sempre sentira e que precisava dela para recomeçar; sentir-se
inteiro e, que não podia explicar mais do que isto. Falou tudo quase sem
respirar e, ao fim, soltou um longo suspiro. Ele a encarava com confiança e
Lucia retribuía seu olhar. Caetano esperava a resposta. E teve uma.
-
Há muito tempo atrás você me disse que meu abraço era seu refúgio e eu aceitei;
de início até achei lindo. Mas sabe, enquanto você estava ausente, sem dar
notícia alguma, andei pensando melhor. E decidi que não quero mais ser refúgio
de ninguém. Não sirvo para rota de fuga, muito menos esconderijo. Não posso
preencher teu vazio, não posso dar as respostas que procura. Só você pode
encontrá-las. Só você pode saciar seu desejo, seja lá do que for. Você tem
muito e não se contenta com nada. Não sabe o que procura, mas sempre quer mais.
Não há paz. Não sou a resposta da tua ânsia, mas também não sou a dúvida. Despeço-me
aqui e te desejo sorte para que possas se encontrar. Um dia nos vemos. Adeus.
Lucia se
levantou, fitou-o com doçura e partiu. E Caetano, com os olhos perdidos no
movimento da avenida, viu a vida a passar enquanto seu café esfriava sobre a
mesa.