28 de mar. de 2014

Sina II

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                Terça-feira à tarde, dia de outono, ela caminhava distraída pela avenida mais movimentada do centro.  Os fones no ouvido lhe transportavam para outra dimensão, sorria sem perceber. Em meio ao aglomerado de pessoas daquela estreita calçada, sentiu alguém a lhe tocar os ombros. Um toque suave, porém decidido.
                Deu a volta no automático, para resolver logo aquilo e voltar para seu mundinho particular. Que surpresa! Sua boca se entreabriu ao mesmo tempo em que seus olhos tentavam assimilar o que viam. Era Ele. Depois de tantos meses, ela até perdera a conta, Caetano ressurgirá; ao acaso, sem avisar.
                Ele a encarava sem desviar o olhar, sem se concentrar em outra coisa, como se pretendesse hipnotizá-la. Ela também o observava. Percebia como sua barba havia crescido; como seus cabelos estavam rebeldes; como sua pele estava sem brilho; e seus olhos... Havia algo de diferente em seu olhar; algo que ela não sabia dizer.
                Caetano a cumprimentou com simpatia e convidou-a para tomar um café. Ainda ser crer em quem via à sua frente, ela aceitou. Enquanto caminhavam, Lucia pensava nas perguntas que sempre se fizera: Por que ele não dera notícias? Aonde andava? O que tinha feito? Será que sentira saudades? Mas quem começou a falar foi ele.
                Com uma voz que beirava a animação – e parecia mais fraca do que Lucia lembrava – ele contou-lhe para aonde tinha viajado e quais lugares havia conhecido. Falou das diferentes pessoas com quem conviveu, os rituais que havia praticado, os hábitos que havia mudado e as coisas incríveis que tinha descoberto. Mas, apesar de toda a empolgação, ela sentia que não era aquilo que ele gostaria de contar.
                Sentaram a uma mesa; ela pediu um cappuccino e ele um café forte sem açúcar – seu predileto, ela sabia. Quando a garçonete se retirou, um silêncio instaurou-se entre os dois. Apesar das inúmeras dúvidas acumuladas com o tempo, Lucia não sentia vontade de perguntar-lhe nada. Ela mesma se surpreendeu; era como se aquelas interrogações todas não fizessem mais sentido.
                 Por alguns minutos seus olhares se atraíram. Dançaram juntos num ritmo lento. Ele a sugava com o olhar como se estivesse com sede. Ela sentia. Mantinha seus olhos fixos nos de Caetano e percebia sua ânsia. Sua vontade sempre presente. Mas era mais do que isso. Por trás daquele olhar insano que a invadia e a atormentava, existia solidão. Havia um enorme vazio que não estava ali antes; ou, talvez, ela nunca tivesse prestado atenção o suficiente.
                Quem quebrou o silêncio mais uma vez foi Caetano. Com o olhar fitando o nada, ele lhe contou sobre seus empreendimentos, seus sonhos. Revelou o quão longe tinham ido seus projetos e quanto lucro lhe haviam gerado. E, depois, como o haviam frustrado. Suas ambições eram grandiosas, mas faltou prudência. Faltou ouvir aos conselhos de quem sempre lhes quis bem.
                Lucia ouvia a tudo boquiaberta. Custava a assimilar que aquele homem tão convicto, tão cheio de si sempre; estava ali, à sua frente, a lhe confessar erros e fracassos; a expor suas fraquezas e humanidade. No final, Caetano ainda disse que tudo havia valido a pena, apesar dos pesares. Mas Lucia já decifrara seu olhar e estas últimas frases não a convenceram.
                Ele, então, respirou fundo, voltou a fitar seus olhos verdes com intensidade e, com um sorriso discreto, perguntou como ela tinha estado. Lucia demorou dez segundos para pôr as ideias em ordem. Quando raciocinou tudo, suspirou, sorriu e disse “Bem.”.
                - Quando você partiu precisei ocupar meu tempo com outras coisas. Então, comecei aquelas aulas de teatro que sempre quis fazer e vivia adiando, lembra? Ah, também redecorei o apartamento, ficou mais colorido, muito mais leve.  Comecei a andar de bicicleta e semana passada mesmo participei de uma maratona. Pena que cheguei em 101º (risos). Também conheci o Chile nas férias, nossa, foi incrível!
                E Lucia tagarelava sem parar. Olhava pro nada, lembrava-se de algo, ria e repartia sua recordação. Seus olhos brilhavam com fervor. E Caetano recordou-se o quanto era bom estar com ela. Sabia que precisava encontrá-la. Sabia que precisava vê-la. Algo dentro de si lhe dizia isso; só não sabia direito o porquê até então.  De repente, tudo se tornou claro à sua frente: A simples presença dela o inspirava; passava-lhe segurança e conforto. Era algo maior do que pudesse explicar.
                E, num ímpeto de sentimento, Caetano a interrompeu e declarou-se. Confessou que sentia sua falta, que sempre sentira e que precisava dela para recomeçar; sentir-se inteiro e, que não podia explicar mais do que isto. Falou tudo quase sem respirar e, ao fim, soltou um longo suspiro. Ele a encarava com confiança e Lucia retribuía seu olhar. Caetano esperava a resposta. E teve uma.
                - Há muito tempo atrás você me disse que meu abraço era seu refúgio e eu aceitei; de início até achei lindo. Mas sabe, enquanto você estava ausente, sem dar notícia alguma, andei pensando melhor. E decidi que não quero mais ser refúgio de ninguém. Não sirvo para rota de fuga, muito menos esconderijo. Não posso preencher teu vazio, não posso dar as respostas que procura. Só você pode encontrá-las. Só você pode saciar seu desejo, seja lá do que for. Você tem muito e não se contenta com nada. Não sabe o que procura, mas sempre quer mais. Não há paz. Não sou a resposta da tua ânsia, mas também não sou a dúvida. Despeço-me aqui e te desejo sorte para que possas se encontrar. Um dia nos vemos. Adeus.
                Lucia se levantou, fitou-o com doçura e partiu. E Caetano, com os olhos perdidos no movimento da avenida, viu a vida a passar enquanto seu café esfriava sobre a mesa.

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