16 de abr. de 2016

Ela cansou


Ela cansou. Seus olhos não possuem mais o mesmo brilho de antes.  Já não vêem tantas cores por onde passam. O sorriso já está amarelando: Cansado de se exibir pra sorrisos falsos. É, não é fácil.
Não é fácil ser amor em tempos de relacionamentos fast-food. Não é fácil ser intensidade quando a novidade está à beira de um toque, ou de um match. Ela não vê mais porque acreditar que as coisas podem ser diferentes depois de dezenas de desilusões. Ela, que sempre foi tão vívida, está se apagando aos poucos.
E não está sendo fácil. Ver que o mundo segue perante suas ansiedades; ansiedades, essas, que são de tantos. Perceber que as pessoas fingem estar felizes ou gostar de algo para não se sentirem sozinhas. Compreender que não basta ser interessante ou ter um milhão de características que te tornam única; ou você segue o jogo ou vai ser substituída rapidinho.
O mundo está chato. Repleto de gente “cheia de razão” e que não aceita a opinião do outro. Habitado, em sua maioria, por pessoas egocêntricas e individualistas, que consideram dividir sinônimo de perder. Que estão enclausuradas pelas redes sociais e a inveja à felicidade alheia. Delimitadas por matches e o desejo instantâneo. Condenadas à satisfação a curto prazo seguida do sentimento de vazio.
De boa mundo, ela cansou. Não consegue mais encontrar o seu lugar neste emaranhado de pessoas rasas. Não encontra mais graça nas competições para ver quem ganha mais likes ou têm mais encontros.
Ela não foi feita pra isso. Não para instantaneidades e meios-termos. Ela é imensidão, é intensidade e não sabe ser supérflua. E nem quer aprender. Prefere viver só do que se envolver para manter as aparências. Pra fingir que tá tudo bem e que não estão todos surtando com o desamor do mundo.
E, apesar disso tudo e da confusão que está dentro dela; ela ainda insiste, mesmo que inconscientemente. Bem no fundo do seu ser uma chaminha de esperança insiste em não se apagar e crê que um dia, quando ela menos esperar, vai surgir alguém que sente como ela. E que também tá cansado do pé que as coisas andam e quer encontrar alguém que faça sentido. Que possa ser abrigo sem cobrar nada em troca.
Porque no fim, ela toda é amor e transborda amor até em tempos de indiferença e “cultura da aparência”, onde importa mais o que você aparenta ser do que quem, de fato, é.  Ela continua em frente, sozinha, mesmo sem saber pra onde ir ou o que virá adiante. Porque ela tá cansada e as coisas precisam mudar.

28 de jun. de 2015

Amanheceu lá fora

Facebook 

-Triiiiiim, Triiiiiim, Triiiiiim.
O despertador da rotina toca incessante, como se o fim do mundo estivesse próximo e fosse preciso gastar todo a sua bateria até lá – questão de vida. Como num gesto automático, ela estica o braço até encontrar aquele pequeno vilão e por fim à sua alegria; ou desespero.
                “Que horas são? Esse relógio só pode estar errado.”. O sono ainda habita o seu corpo. A preguiça não se despediu, a recém chegou pra festa. Seu corpo dói, seus músculos doem, até sua alma dói. Mas não é uma dor ruim, é uma dor ótima. Dor de quem expulsou suas inibições sem dó; de quem abriu aquela caixinha, trancada a sete chaves num cantinho do consciente, repleta de segredos; dor de quem não ficou com peso na consciência e se entregou sem medos e ressalvas.
                Ela sorri. Sente seu cabelo mais emaranhado que o habitual. Sente o ar frio da manhã a fazer cócegas na sua pele. É hora de acordar. Mas seu corpo não responde apenas seus olhos vencem a batalha. Ao seu lado, ele dorme tranquilo. Parece sonhar, está longe daqui, a realidade não o alcança mais.
                Sua face está serena, nem parecem os mesmos traços de horas atrás. Mas é ele sim, quem mais poderia ser? Ele que a desvendou a muito mais tempo, que conheceu seu lado mais obscuro e não fugiu; que em meio ao caos da rotina e compromissos ofereceu um café quente e um ouvido atento.
                Os primeiros raios de sol a entrar pela fresta da janela já tocam seus rostos. Ela inspira profunda e demoradamente. Ah, como é boa essa sensação. Como é eterno esse momento. O mundo lá fora que espere. Aqui ainda há muito que amar.
 

7 de out. de 2014

Encerrando.

Say - John Mayer

It's better to say too much, than never to say what you need to say again

22 de jul. de 2014

10 de jul. de 2014

24 de mai. de 2014

Intimidade


                Respirações ofegantes. Nús. Suados. Entregues. Deitaram-se um de frente para o outro e apenas enxergaram-se.
                Ela notou que seu cabelo, antes tão rebelde, não possuía mais vida. Que o toque das suas mãos, sempre tão firme, perdera a certeza. Que o sorriso dele, por mais esforçado que  fosse, não era capaz de esconder sua tristeza. Ele também percebeu mudanças nela.  Seus olhos, acostumados a lhe mostrar a direção, agora estavam perdidos, sem rumo. Sua pele, sempre tão viçosa, estava opaca. Nem a sua respiração era a mesma – não havia mais calma, algo angustiava seu peito.
                Algo havia mudado isto era claro. Mas nenhum dos dois ousava tocar no assunto. Primeiro, por negação; depois por medo e, por último, para não se magoarem. Mas fazia tempo (quanto?) que seus caminhos não conduziam mais ao mesmo lugar. Ele não esquentava o café dela. Ela não lhe mandava mensagens. Ele não perguntava sobre o livro que ela lia. Ela não questionava com quem ele saia.
                Assim, foram se distanciando e apenas a noite os unia. Sob a escuridão trocavam abraços, beijos, carinhos e tentavam driblar o vão que se impunha rasante entre eles. Mas não houve trégua. A lacuna só aumentava com suas tentativas estúpidas de entrosamento. O assunto podia ser ótimo, o local também, até as intenções podiam ser as melhores possíveis, mas quando algo muda dentro de nós, somos obrigados a mudar aqui fora também.
                Naquele momento não se falaram nem se mexeram. Apenas trocaram longos instantes de intimidade. Enxergaram-se. Não sua aparência física e traços vulgares, mas a alma um do outro, o que havia de mais profundo escondido em um olhar. Sentiram, então, algo que não sentiam fazia tempo: Que naquele instante eles eram um só e nada mais importava. Não havia espaço para dúvidas. Uma sensação de serenidade os dominou.
                Beijaram-se apaixonadamente ao pé da porta e trocaram um longo olhar afetuoso de velhos amigos. Atravessaram a rua e nunca mais se viram.