7 de out. de 2014

Encerrando.

Say - John Mayer

It's better to say too much, than never to say what you need to say again

22 de jul. de 2014

10 de jul. de 2014

24 de mai. de 2014

Intimidade


                Respirações ofegantes. Nús. Suados. Entregues. Deitaram-se um de frente para o outro e apenas enxergaram-se.
                Ela notou que seu cabelo, antes tão rebelde, não possuía mais vida. Que o toque das suas mãos, sempre tão firme, perdera a certeza. Que o sorriso dele, por mais esforçado que  fosse, não era capaz de esconder sua tristeza. Ele também percebeu mudanças nela.  Seus olhos, acostumados a lhe mostrar a direção, agora estavam perdidos, sem rumo. Sua pele, sempre tão viçosa, estava opaca. Nem a sua respiração era a mesma – não havia mais calma, algo angustiava seu peito.
                Algo havia mudado isto era claro. Mas nenhum dos dois ousava tocar no assunto. Primeiro, por negação; depois por medo e, por último, para não se magoarem. Mas fazia tempo (quanto?) que seus caminhos não conduziam mais ao mesmo lugar. Ele não esquentava o café dela. Ela não lhe mandava mensagens. Ele não perguntava sobre o livro que ela lia. Ela não questionava com quem ele saia.
                Assim, foram se distanciando e apenas a noite os unia. Sob a escuridão trocavam abraços, beijos, carinhos e tentavam driblar o vão que se impunha rasante entre eles. Mas não houve trégua. A lacuna só aumentava com suas tentativas estúpidas de entrosamento. O assunto podia ser ótimo, o local também, até as intenções podiam ser as melhores possíveis, mas quando algo muda dentro de nós, somos obrigados a mudar aqui fora também.
                Naquele momento não se falaram nem se mexeram. Apenas trocaram longos instantes de intimidade. Enxergaram-se. Não sua aparência física e traços vulgares, mas a alma um do outro, o que havia de mais profundo escondido em um olhar. Sentiram, então, algo que não sentiam fazia tempo: Que naquele instante eles eram um só e nada mais importava. Não havia espaço para dúvidas. Uma sensação de serenidade os dominou.
                Beijaram-se apaixonadamente ao pé da porta e trocaram um longo olhar afetuoso de velhos amigos. Atravessaram a rua e nunca mais se viram.


20 de abr. de 2014

Mudança

           Pinterest

             
Ela queria mudar o mundo. Mas primeiro precisava mudar a si mesma. E começou pela parte mais complicada: Arrumar a bagunça que havia dentro de si. Era tanta coisa acumulada que nem sabia por onde começar.  Ideias criavam teias de aranha num canto, sonhos eram sufocados pelo peso das “obrigações”.  Sentimentos disputavam atenção e quanto espaço ocupava a desilusão?
                Mariana resolveu reorganizar. Reavaliou suas prioridades e enumerou suas obrigações. Espalhou-as por cantinhos diversos evitando que se unissem e formassem uma bola de neve pronta a sufocar. Algumas delas foram descartadas. Por que precisava daquilo mesmo?  Sentiu-se leve como há tempos não sentia. O próximo passo era dar atenção para os sonhos.
                Quando pequena cultivava diversos desejos... Ser atriz de cinema, viajar pelo mundo, saber cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, virar bailarina e, até mesmo, descobrir a cura do câncer quando este a separou de seu avô repentinamente. Mas Mariana cresceu e lidando com as contínuas escolhas da vida, esqueceu-se de regar seus sonhos.  Leais que estes são não a abandonaram e sempre que a razão descuidava apareciam em sua memória.
                Ela despertou, abraçou e se emocionou com cada um deles. Alguns não possuíam mais a mesma força de antes, mas sua essência estava viva em outros projetos. Mariana sempre quis fazer as pessoas sorrirem, compartilhar o espetáculo da vida e, entendendo isso, descobriu que não havia abdicado de virar bailarina, apenas optou por outra profissão: Formou-se enfermeira porque encontrara outra maneira de levar alegria e alento a tantos por aí.
                Era jovem, tinha tempo de sobra para conhecer o mundo. Além disso, sabia que poderia ajudar diversas pessoas com os conhecimentos da sua profissão e sua paciência. Então, tirou o pó de uma ideia guardada muito tempo atrás: Certo dia Pedro, seu amigo, propôs que conhecessem esse mundão de meu Deus juntos, pois era desejo reprimido de ambos e a amizade multiplicaria as alegrias ainda mais. Mas Mariana, temerosa, não quis. Mudar não era fácil, dar asas a um sonho era mais assustador ainda.
                Agora que começara a faxina dentro de si, não via porque não fazer isso. Suas obrigações e aquilo que considerava prioridades estavam mudando; ela própria já não era mais a mesma do início desta história. A vida é assim: Levamos muito tempo até decidir mudar e, tomada à decisão, mudamos mais rápido do que imaginamos.
                Mariana poderia conversar com Pedro e descobrir se ele tinha o mesmo interesse de antes, seria prazeroso ter companhia na viagem. Caso contrário, seu interesse mesmo bastava. Estava empolgada, sentia que esta era a decisão mais importante de sua vida em muitos anos. E por isso mesmo, era a escolha correta. Poderia não aprender a cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, mas certamente aprenderia receitas diferentes e, apenas isto já valia a pena.
                Sentia um turbilhão de sentimentos dentro do seu coração, era uma festa inesquecível. Euforia, alegria, paz, medo, insegurança, coragem e amor dançavam no ritmo de sua pulsação. Sabia que todos estes e outros mais a acompanhariam em sua jornada e que isto era normal. Bastava dar mais importância a alguns (que compreendiam seus sonhos) e não esquecer os outros, afinal todos se faziam necessários para o sucesso de sua mudança.
                Ela não tinha mais receio da desilusão, não havia mais espaço para esta em seu coração. Se um dia não houvesse alternativa e ela chegasse de malas prontas, tudo bem.  Mariana a acolheria por um tempo, mas até lá tinha muitas coisas para vivenciar. Pegou o telefone e este chamou duas vezes antes de alguém atender.
                - Alô?
                - Pedro? Oi, é a Mari. Precisamos conversar, tenho muita coisa para te contar.
                Mariana não estava mais perdida, mas ainda tinha muita bagunça para organizar. Iniciada a mudança interna, aqui fora ainda havia as malas parra arrumar.

18 de abr. de 2014

2 de abr. de 2014

João e a barba


(1) Facebook

Desde pequeno se sentia estranho
sentia que aquele não era seu lugar
todos o olhavam desconfiados
que será que aquele cara vai aprontar?


Ele andava pelas ruas
sempre a imaginar
será que um dia irá chegar alguém
que vai lhe completar?


Até que teve uma grande ideia
e resolveu deixar a barba crescer
todos olhavam espantados
o que ele acabara de fazer!


João já não era mais sozinho
levava a barba pra passear
conversava e brincava com ela
e decidiu nunca mais a cortar.


As pessoas não entendiam
por que aquela sujeira no rosto
será que escondia algo
ou não batia bem aquele moço?


João já não ouvia mais ninguém
e só com a barba queria estar
Pra ele não importava
o que os outros tinham a falar.


Certo dia ficou apavorado
descobriu um plano mirabolante
todos queriam sua barba cortar
então fugiu pra um lugar bem distante!


Lá no meio do nada
não tinha com que se preocupar
o amor por sua barba só aumentava
não parava de sonhar.


Gostava tanto dela
que deixou de comer pra barba não sujar
e parou de dormir
pra não amassar.


Pobre João
seus dias mais felizes foram ilusão
viveu exilado
cego de paixão.

Ninguém nunca mais ouviu falar dele
mas até hoje todos sabem a lição
a tal barba é medonha
detesta dividir a atenção.

28 de mar. de 2014

Sina II

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                Terça-feira à tarde, dia de outono, ela caminhava distraída pela avenida mais movimentada do centro.  Os fones no ouvido lhe transportavam para outra dimensão, sorria sem perceber. Em meio ao aglomerado de pessoas daquela estreita calçada, sentiu alguém a lhe tocar os ombros. Um toque suave, porém decidido.
                Deu a volta no automático, para resolver logo aquilo e voltar para seu mundinho particular. Que surpresa! Sua boca se entreabriu ao mesmo tempo em que seus olhos tentavam assimilar o que viam. Era Ele. Depois de tantos meses, ela até perdera a conta, Caetano ressurgirá; ao acaso, sem avisar.
                Ele a encarava sem desviar o olhar, sem se concentrar em outra coisa, como se pretendesse hipnotizá-la. Ela também o observava. Percebia como sua barba havia crescido; como seus cabelos estavam rebeldes; como sua pele estava sem brilho; e seus olhos... Havia algo de diferente em seu olhar; algo que ela não sabia dizer.
                Caetano a cumprimentou com simpatia e convidou-a para tomar um café. Ainda ser crer em quem via à sua frente, ela aceitou. Enquanto caminhavam, Lucia pensava nas perguntas que sempre se fizera: Por que ele não dera notícias? Aonde andava? O que tinha feito? Será que sentira saudades? Mas quem começou a falar foi ele.
                Com uma voz que beirava a animação – e parecia mais fraca do que Lucia lembrava – ele contou-lhe para aonde tinha viajado e quais lugares havia conhecido. Falou das diferentes pessoas com quem conviveu, os rituais que havia praticado, os hábitos que havia mudado e as coisas incríveis que tinha descoberto. Mas, apesar de toda a empolgação, ela sentia que não era aquilo que ele gostaria de contar.
                Sentaram a uma mesa; ela pediu um cappuccino e ele um café forte sem açúcar – seu predileto, ela sabia. Quando a garçonete se retirou, um silêncio instaurou-se entre os dois. Apesar das inúmeras dúvidas acumuladas com o tempo, Lucia não sentia vontade de perguntar-lhe nada. Ela mesma se surpreendeu; era como se aquelas interrogações todas não fizessem mais sentido.
                 Por alguns minutos seus olhares se atraíram. Dançaram juntos num ritmo lento. Ele a sugava com o olhar como se estivesse com sede. Ela sentia. Mantinha seus olhos fixos nos de Caetano e percebia sua ânsia. Sua vontade sempre presente. Mas era mais do que isso. Por trás daquele olhar insano que a invadia e a atormentava, existia solidão. Havia um enorme vazio que não estava ali antes; ou, talvez, ela nunca tivesse prestado atenção o suficiente.
                Quem quebrou o silêncio mais uma vez foi Caetano. Com o olhar fitando o nada, ele lhe contou sobre seus empreendimentos, seus sonhos. Revelou o quão longe tinham ido seus projetos e quanto lucro lhe haviam gerado. E, depois, como o haviam frustrado. Suas ambições eram grandiosas, mas faltou prudência. Faltou ouvir aos conselhos de quem sempre lhes quis bem.
                Lucia ouvia a tudo boquiaberta. Custava a assimilar que aquele homem tão convicto, tão cheio de si sempre; estava ali, à sua frente, a lhe confessar erros e fracassos; a expor suas fraquezas e humanidade. No final, Caetano ainda disse que tudo havia valido a pena, apesar dos pesares. Mas Lucia já decifrara seu olhar e estas últimas frases não a convenceram.
                Ele, então, respirou fundo, voltou a fitar seus olhos verdes com intensidade e, com um sorriso discreto, perguntou como ela tinha estado. Lucia demorou dez segundos para pôr as ideias em ordem. Quando raciocinou tudo, suspirou, sorriu e disse “Bem.”.
                - Quando você partiu precisei ocupar meu tempo com outras coisas. Então, comecei aquelas aulas de teatro que sempre quis fazer e vivia adiando, lembra? Ah, também redecorei o apartamento, ficou mais colorido, muito mais leve.  Comecei a andar de bicicleta e semana passada mesmo participei de uma maratona. Pena que cheguei em 101º (risos). Também conheci o Chile nas férias, nossa, foi incrível!
                E Lucia tagarelava sem parar. Olhava pro nada, lembrava-se de algo, ria e repartia sua recordação. Seus olhos brilhavam com fervor. E Caetano recordou-se o quanto era bom estar com ela. Sabia que precisava encontrá-la. Sabia que precisava vê-la. Algo dentro de si lhe dizia isso; só não sabia direito o porquê até então.  De repente, tudo se tornou claro à sua frente: A simples presença dela o inspirava; passava-lhe segurança e conforto. Era algo maior do que pudesse explicar.
                E, num ímpeto de sentimento, Caetano a interrompeu e declarou-se. Confessou que sentia sua falta, que sempre sentira e que precisava dela para recomeçar; sentir-se inteiro e, que não podia explicar mais do que isto. Falou tudo quase sem respirar e, ao fim, soltou um longo suspiro. Ele a encarava com confiança e Lucia retribuía seu olhar. Caetano esperava a resposta. E teve uma.
                - Há muito tempo atrás você me disse que meu abraço era seu refúgio e eu aceitei; de início até achei lindo. Mas sabe, enquanto você estava ausente, sem dar notícia alguma, andei pensando melhor. E decidi que não quero mais ser refúgio de ninguém. Não sirvo para rota de fuga, muito menos esconderijo. Não posso preencher teu vazio, não posso dar as respostas que procura. Só você pode encontrá-las. Só você pode saciar seu desejo, seja lá do que for. Você tem muito e não se contenta com nada. Não sabe o que procura, mas sempre quer mais. Não há paz. Não sou a resposta da tua ânsia, mas também não sou a dúvida. Despeço-me aqui e te desejo sorte para que possas se encontrar. Um dia nos vemos. Adeus.
                Lucia se levantou, fitou-o com doçura e partiu. E Caetano, com os olhos perdidos no movimento da avenida, viu a vida a passar enquanto seu café esfriava sobre a mesa.

5 de mar. de 2014

Caixa alta, frases exaltadas
Mentiras mal contadas nessa história sem fim
Verdades repreendidas, sentimentos apurados
quantos amores aluados não acabam por um triz?

3 de mar. de 2014

N, Nando Reis



"E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?"

               Ahh, Nando e suas letras impecáveis, uma melhor que a outra...

2 de mar. de 2014

304 Dias


Você me veio como um sonho bom, desses dos quais a gente não pretende acordar. Mas não foi um sonho, foi real. Tu apareceste na esquina da minha casa num sábado à noite, como por passe de mágica, feito sob medida para mim: Para minhas carências e inquietudes. Aos ventos do acaso (?) nos encontramos, sem planejar ou esperar. E esse encontro sem querer foi melhor do que qualquer pretensão.
                O violão em tuas costas, a garrafa de Martini em minhas mãos, hehe, e a lua como diva principal dos palcos no céu; tudo isto contribuiu para uma noite inesquecível. Uma madrugada regada a amigos e, conversas e, primeiras vezes e, músicas e, declarações e, brigas e, risadas e, porres e, sufoco. Ufa! Quanta coisa. E, independente de todas essas histórias, a tua voz ficou gravada em mim. Mesmo tu tendo colocado o dedo dentro do meu olho, lembra? Hehe. Okay, vou ser romântica.
Você veio para mim para me lembrar do quanto à vida é boa e generosa; você veio para que eu continuasse crendo em tudo que sempre acreditei; você veio para acrescentar sorrisos nos meus dias; você veio para afugentar meus pesadelos; você veio para dar melodia à minha vida; você veio para me encher o saco e mostrar que as coisas não são somente da maneira que penso.
Amor, você é o meu anjo bom. Desde o início me encantaste com tua pureza e simplicidade. Foi sincero sem eu pedir. Foi cauteloso para me conquistar. E, assim, pude me apaixonar pouquinho a pouquinho. Nós nunca consideramos o para sempre e os finais felizes das histórias, nada contra os clichês, mas a vida é improviso. O amanhã ninguém sabe como será, mas hoje é bom estar contigo.
Ao longo de todos esses dias que estamos juntos já passamos por muitas coisas ruins, enfrentamos cada barra! Que falta faz um manual de instruções, uma ajudinha às vezes, não é mesmo? Mas sei que tudo isso valeu a pena, aprendemos e crescemos juntos com cada obstáculo que superamos. Querendo virar gente grande.
Somos quase completamente diferentes: Gostos, concepções, personalidade. Mas nunca encarei as diferenças como algo negativo; ao contrário, elas acrescentam e ajudam a somar. Nossas semelhanças nos são suficientes, mas o tempero é a divergência! Abrir a mente e permitir-se descobrir, experimentar... Adaptarmo-nos um ao outro. Isso é amor.
Vou usar de uma das bandas que mais gosto - Detonautas, para te descrever em uma frase simples: “Você me faz tão bem”.  E isso é tão pouco para mostrar o quanto você participa e é importante na minha vida. O teu amor me faz ser uma pessoa melhor. Que seja verdadeiro enquanto durar. Te amo.