25 de fev. de 2014

SINA



  girl vintage

              Fazia uma manhã bonita. O sol brincava de pique-esconde com as nuvens, o céu era de um azul fora do normal. Os pássaros cantavam alegres à vida. Tudo seguia tranquilo, como se a pressão da presença do tempo fosse inútil naquele lugar, naquela manhã. Nem os relógios anunciavam tic-tacs – que ultraje seria romper com a harmonia!
                Ela dobrou uma esquina qualquer e, então, ouviu o vento sussurrar em seu ouvido. Não estava sozinha. Olhou para os lados e não avistou ninguém. Sentiu seu coração acelerar ansioso para logo em seguida, acalmar por instinto. Era ele. Disso tinha certeza. Suas emoções só oscilavam assim com a sua presença.
                Mas onde estava? Deu uma volta em torno de si mesma e não enxergou ninguém. Sequer uma sombra. Era muito cedo, quase nunca alguém passava por lá nesse horário. Questionou sua certeza, mas não sentiu medo. Era ele ou então não era ninguém. E tinha ouvido. Sua voz grave, inconfundível, diluída no vento a acordar-lhe os ouvidos.
                Sim. Aquela mesma voz que declamava poesias com candura, que ganhava efeito e cena sobre tensão, que lhe cortejava os ouvidos com as mais sinceras indecências e ficava levemente constrangida ao entregar suas inabilidades para o canto. Sua voz que era como uma ordem para ela. Um som natural. Algo a que estava predestinada.
                Sentiu uma brisa morna e viu as folhas da árvore a sua direita balançarem. Ninguém. Mas sabia que ele estava por ali. Imaginou seu olhar a fulminá-la. Uma mistura de ódio e desejo. Algo tão intenso que a incomodava. Conhecia o brilho daquele olhar, seus olhos pretos cintilavam frios como a noite. Ignoravam o mundo a sua volta. Rompiam com facilidade a barreira de sua pele e buscavam a todo custo desvendar seus segredos. Tinha medo do olhar dele. Mas não sabia fugir. Não podia fugir. Precisava encará-lo, guardar todo o momento que pudesse.
                Desejava poder observá-lo só uma vez mais. Estremecer com seu sorriso, arrepiar-se com seu toque. Lucia se sentiu tonta. Estava parada no sol a mais minutos do que percebera. Sentou-se no meio-fio. Recobrou o fôlego e voltou a imaginar. Recordou-se da última vez em que o viu. Nunca vira tanta convicção e sonhos em uma só pessoa. Em seu rosto quase quadrado não havia sinal de dúvidas. Não havia espaço para incertezas. Ele não a consultou, porém já havia tomado sua decisão. Iria partir, precisava arriscar.
                Ignorou seus pedidos insistentes de paciência, de calma. Ele não tinha tempo pra perder, também não tinha tempo pra buscar. Só precisava seguir e ela não poderia ir com ele. Tinham uma conexão forte, isto era claro, mas não recíproca. Lucia soube que o perderia e o beijou pela última vez com todo o resto de suas esperanças infantis. Um beijo de tirar o fôlego, um momento para tocar a alma, uma rendição.
                E passaram-se seis longos meses e ela nunca mais o viu a não ser em suas lembranças e nos pesadelos que voltavam noite após noite para atormentá-la. Nenhuma carta, nem um email, nem um postal. Ele desaparecerá no mundo e parte dela também. Percebeu, então, que estava atrasada para o trabalho e seguiu a caminhar ainda cambaleante. Agora sua rotina era sua sina.

10 de fev. de 2014

Dê uma chance aos estranhos



                Desde pequenos recebemos incontáveis conselhos e dicas de nossos pais: “Nunca se esqueça de dizer obrigado, por favor e com licença”, “Não faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você”, “ Respeite os mais velhos”, “Seus pais sempre irão querer o melhor para você”. Alguns são difíceis de aceitar e mais ainda de praticar. São responsáveis por brigas, punições, questionamentos sem fins e noites de insônia. Porém, na grande maioria das vezes, eles nos guiam não só na infância, mas a vida toda.
                Crescemos, amadurecemos e entendemos –nem sempre da maneira mais fácil- aquilo que nossos pais quiseram nos ensinar. Compreendemos as escolhas que nos pareceram duvidosas; descobrimos a coragem por trás de opções aparentemente simples; enxergamos as renúncias noutro lado do caminho escolhido. Ufa! Ainda bem que escolheram por nós.      
                Mas essa crônica não vem falar da sabedoria e doação presente em cada escolha e conselho de nossos pais. Ao contrário: Vem adaptar um de seus mais antigos chavões “Não fale com estranhos”. Quem nunca ouviu isso de seus velhos? Assim que começamos a frequentar a escola e damos nossos primeiros passos sozinhos, somos logo advertidos a não dar papo a desconhecidos.
                Até aí tudo bem. Todos estão a par do número de pessoas perigosas e mal intencionadas que se escondem atrás de sorrisos brancos e expressões afetuosas dia após dia. Mas venhamos e convenhamos, é quase impossível exigir isso dos pequenos atualmente. A não ser que seu filho seja autodidata, viva recluso à casa e não possua convívio com a internet , telefones ou janelas.
                Vivemos num tempo em que tudo acontece muito rapidamente: O primeiro celular antes dos oito anos, o primeiro perfil em uma rede social antes dos dez, a independência requisitada cada vez mais cedo. As razões para esses fatores variam da necessidade por parte dos pais, cada vez mais atribulados por trabalho e stress, de se comunicar e receber informações de seus rebentos; à inserção tecnológica que acontece cada vez mais cedo nas novas gerações. Além é claro, das mudanças de paradigma que a sociedade sofreu e sofre, desde os anos cinquenta.
                Num mundo repleto de informação e possibilidades é retrógrado e insensato, pedir que as crianças não se comuniquem com estranhos. Restritas a brincar e crescer dentro de pátios e grades, a internet por vezes se torna um passatempo interessante e, sinceramente, somos todos estranhos na rede. Omitimos informações, compartilhamos o que nos convém , mudamos fatos, alteramos a ordem das coisas e somos quem bem entendemos. E, nem por isso, somos mal feitores ou maus-caracteres.
                É certo que existem pessoas ruins na internet ou nas ruas, mas nem todos os estranhos são negativos. Muitas vezes nosso melhor amigo era até então, um desconhecido, quando concedemos uma brecha para aproximação. Tantas outras vezes não foram às pessoas próximas que nos estenderam a mão e, sim quem estava distante. Não podemos nem devemos confiar em qualquer um que nos apresenta um sorriso ou um cumprimento, mas se não dermos chances ao desconhecido estamos fadados à mediocridade.
                Não é necessário que as crianças confidenciem seus endereços, telefones e informações pessoais para estranhos. Para ensinar isso é que serve a educação provinda dos pais. Porém, virar a cara e desviar o olhar de tudo e todos que não nos são habituais não é proteger-se. É isolar-se. E tanta coisa boa vem do desconhecido. Amizades verdadeiras, ajudas indispensáveis, afeto quando necessário – e quando não também, aprendizados de vida e lições importantes.
                Falar com estranhos pode ser ruim, mas pode ser bom também. Ajuda a desenvolver a inteligência e o discernimento da criança, destrói preconceitos e fomenta a relação de confiança com os pais quando não é algo escondido. Por isso o conselho deveria ser “Fale com estranhos, dê uma chance a quem você não conhece, mas faça isso com cautela e prudência”. E, com essa relação de sinceridade, os pequenos seriam preparados melhor para o que os cerca: O desconhecido.

5 de fev. de 2014

Quando o fim não é belo

Humanless | via Facebook 


Sabe qual é uma das melhores coisas das férias? A despeito de acordar tarde, saber-se feliz por não ter de trabalhar amanhã e receber o seu sacrificado dinheirinho pelo qual trabalhou doze longos meses para merecer; é: Desprender-se do relógio.
Bom mesmo é não saber o que fazer daqui à uma hora, poder decidir com calma o que quer almoçar, qual programa fará à tarde (se visitará um amigo distante, assistirá os episódios perdidos de sua série favorita ou dormirá o tempo inteiro) e se reinventar para a noite.  E na manhã seguinte abrir os olhos ainda sonolentos, mirar o despertador e pensar “hoje não”.
Desregrar-se da rotina. Esquecer os horários. Esquecer até mesmo qual dia da semana é hoje. Permitir-se descansar, descobrir, desabrochar. Tomar uma cerveja gelada às dez da manhã e almoçar às duas da tarde.  Sem consciência pesada, sem dever satisfações. Fazer daquele senhor sério, de óculos de fundo de garrafa, chamado tempo, seu convidado mais ilustre e recepcioná-lo com a menina de longas tranças e vestido rodeado, que atende pelo nome de imaginação.
Mas nem todos são assim. Alguns são escravos do relógio, sempre serão.  Não importa se têm uma semana ou um mês de férias; sua maior alegria (pensam assim) está no compromisso marcado, no horário registrado na agenda. São pessoas apressadas e previsíveis. Aquele tipo que quando está no cinema conta os minutos para o final surpreendente do filme e, depois que passa, arrepende-se por não ter prestado atenção aos detalhes do enredo.  Aqueles que apressam a família inteira para um evento e, ao chegar lá, anseiam para que acabe logo e possam retornar cedo para casa.
São pessoas arredias. Seu tempo é precioso demais para ser desperdiçado com qualquer um. As férias são um suplício, uma obrigação. Oram para que apareça um passatempo interessante ou uma ocupação para seus dias. Temem o ócio. Temem ficarem sem nada para fazer a ponto de encontrarem sua solidão. De não terem para onde correr ou se esconder. A solidão os deflagraria ali – sozinhos, inquietos, reféns de sua própria companhia. Seriam obrigados a enxergarem-se, seus defeitos e virtudes, exageros e faltas, medos e sonhos.
Têm medo do que podem descobrir. A realidade por vezes é cruel. Talvez estejam mesmos sozinhos; talvez seus sonhos tenham ficado para trás, talvez a pressa não leve a lugar nenhum afinal. Aonde chegar?  O final dessa jornada todos nós já conhecemos e ninguém (em sã consciência) pretende encurtá-la. Homens sempre apressados não têm paz de espírito e roubam a paz de sua família também. Passam a vida a fugir e esquecem-se de viver.