Respirações
ofegantes. Nús. Suados. Entregues. Deitaram-se um de frente para o outro e
apenas enxergaram-se.
Ela
notou que seu cabelo, antes tão rebelde, não possuía mais vida. Que o toque das
suas mãos, sempre tão firme, perdera a certeza. Que o sorriso dele, por mais
esforçado que fosse, não era capaz de
esconder sua tristeza. Ele também percebeu mudanças nela. Seus olhos, acostumados a lhe mostrar a
direção, agora estavam perdidos, sem rumo. Sua pele, sempre tão viçosa, estava
opaca. Nem a sua respiração era a mesma – não havia mais calma, algo angustiava
seu peito.
Algo
havia mudado isto era claro. Mas nenhum dos dois ousava tocar no assunto.
Primeiro, por negação; depois por medo e, por último, para não se magoarem. Mas
fazia tempo (quanto?) que seus caminhos não conduziam mais ao mesmo lugar. Ele
não esquentava o café dela. Ela não lhe mandava mensagens. Ele não perguntava
sobre o livro que ela lia. Ela não questionava com quem ele saia.
Assim,
foram se distanciando e apenas a noite os unia. Sob a escuridão trocavam
abraços, beijos, carinhos e tentavam driblar o vão que se impunha rasante entre
eles. Mas não houve trégua. A lacuna só aumentava com suas tentativas estúpidas
de entrosamento. O assunto podia ser ótimo, o local também, até as intenções
podiam ser as melhores possíveis, mas quando algo muda dentro de nós, somos
obrigados a mudar aqui fora também.
Naquele
momento não se falaram nem se mexeram. Apenas trocaram longos instantes de
intimidade. Enxergaram-se. Não sua aparência física e traços vulgares, mas a
alma um do outro, o que havia de mais profundo escondido em um olhar. Sentiram,
então, algo que não sentiam fazia tempo: Que naquele instante eles eram um só e
nada mais importava. Não havia espaço para dúvidas. Uma sensação de serenidade
os dominou.
Beijaram-se
apaixonadamente ao pé da porta e trocaram um longo olhar afetuoso de velhos
amigos. Atravessaram a rua e nunca mais se viram.