20 de abr. de 2014

Mudança

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Ela queria mudar o mundo. Mas primeiro precisava mudar a si mesma. E começou pela parte mais complicada: Arrumar a bagunça que havia dentro de si. Era tanta coisa acumulada que nem sabia por onde começar.  Ideias criavam teias de aranha num canto, sonhos eram sufocados pelo peso das “obrigações”.  Sentimentos disputavam atenção e quanto espaço ocupava a desilusão?
                Mariana resolveu reorganizar. Reavaliou suas prioridades e enumerou suas obrigações. Espalhou-as por cantinhos diversos evitando que se unissem e formassem uma bola de neve pronta a sufocar. Algumas delas foram descartadas. Por que precisava daquilo mesmo?  Sentiu-se leve como há tempos não sentia. O próximo passo era dar atenção para os sonhos.
                Quando pequena cultivava diversos desejos... Ser atriz de cinema, viajar pelo mundo, saber cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, virar bailarina e, até mesmo, descobrir a cura do câncer quando este a separou de seu avô repentinamente. Mas Mariana cresceu e lidando com as contínuas escolhas da vida, esqueceu-se de regar seus sonhos.  Leais que estes são não a abandonaram e sempre que a razão descuidava apareciam em sua memória.
                Ela despertou, abraçou e se emocionou com cada um deles. Alguns não possuíam mais a mesma força de antes, mas sua essência estava viva em outros projetos. Mariana sempre quis fazer as pessoas sorrirem, compartilhar o espetáculo da vida e, entendendo isso, descobriu que não havia abdicado de virar bailarina, apenas optou por outra profissão: Formou-se enfermeira porque encontrara outra maneira de levar alegria e alento a tantos por aí.
                Era jovem, tinha tempo de sobra para conhecer o mundo. Além disso, sabia que poderia ajudar diversas pessoas com os conhecimentos da sua profissão e sua paciência. Então, tirou o pó de uma ideia guardada muito tempo atrás: Certo dia Pedro, seu amigo, propôs que conhecessem esse mundão de meu Deus juntos, pois era desejo reprimido de ambos e a amizade multiplicaria as alegrias ainda mais. Mas Mariana, temerosa, não quis. Mudar não era fácil, dar asas a um sonho era mais assustador ainda.
                Agora que começara a faxina dentro de si, não via porque não fazer isso. Suas obrigações e aquilo que considerava prioridades estavam mudando; ela própria já não era mais a mesma do início desta história. A vida é assim: Levamos muito tempo até decidir mudar e, tomada à decisão, mudamos mais rápido do que imaginamos.
                Mariana poderia conversar com Pedro e descobrir se ele tinha o mesmo interesse de antes, seria prazeroso ter companhia na viagem. Caso contrário, seu interesse mesmo bastava. Estava empolgada, sentia que esta era a decisão mais importante de sua vida em muitos anos. E por isso mesmo, era a escolha correta. Poderia não aprender a cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, mas certamente aprenderia receitas diferentes e, apenas isto já valia a pena.
                Sentia um turbilhão de sentimentos dentro do seu coração, era uma festa inesquecível. Euforia, alegria, paz, medo, insegurança, coragem e amor dançavam no ritmo de sua pulsação. Sabia que todos estes e outros mais a acompanhariam em sua jornada e que isto era normal. Bastava dar mais importância a alguns (que compreendiam seus sonhos) e não esquecer os outros, afinal todos se faziam necessários para o sucesso de sua mudança.
                Ela não tinha mais receio da desilusão, não havia mais espaço para esta em seu coração. Se um dia não houvesse alternativa e ela chegasse de malas prontas, tudo bem.  Mariana a acolheria por um tempo, mas até lá tinha muitas coisas para vivenciar. Pegou o telefone e este chamou duas vezes antes de alguém atender.
                - Alô?
                - Pedro? Oi, é a Mari. Precisamos conversar, tenho muita coisa para te contar.
                Mariana não estava mais perdida, mas ainda tinha muita bagunça para organizar. Iniciada a mudança interna, aqui fora ainda havia as malas parra arrumar.

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