Ela queria mudar o mundo. Mas primeiro precisava mudar a si mesma. E começou pela parte mais complicada: Arrumar a bagunça que havia dentro de si. Era tanta coisa acumulada que nem sabia por onde começar. Ideias criavam teias de aranha num canto, sonhos eram sufocados pelo peso das “obrigações”. Sentimentos disputavam atenção e quanto espaço ocupava a desilusão?
Mariana
resolveu reorganizar. Reavaliou suas prioridades e enumerou suas obrigações. Espalhou-as
por cantinhos diversos evitando que se unissem e formassem uma bola de neve
pronta a sufocar. Algumas delas foram descartadas. Por que precisava daquilo
mesmo? Sentiu-se leve como há tempos não
sentia. O próximo passo era dar atenção para os sonhos.
Quando
pequena cultivava diversos desejos... Ser atriz de cinema, viajar pelo mundo,
saber cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, virar bailarina e, até
mesmo, descobrir a cura do câncer quando este a separou de seu avô
repentinamente. Mas Mariana cresceu e lidando com as contínuas escolhas da
vida, esqueceu-se de regar seus sonhos. Leais que estes são não a abandonaram e sempre
que a razão descuidava apareciam em sua memória.
Ela
despertou, abraçou e se emocionou com cada um deles. Alguns não possuíam mais a
mesma força de antes, mas sua essência estava viva em outros projetos. Mariana
sempre quis fazer as pessoas sorrirem, compartilhar o espetáculo da vida e,
entendendo isso, descobriu que não havia abdicado de virar bailarina, apenas optou
por outra profissão: Formou-se enfermeira porque encontrara outra maneira de
levar alegria e alento a tantos por aí.
Era
jovem, tinha tempo de sobra para conhecer o mundo. Além disso, sabia que
poderia ajudar diversas pessoas com os conhecimentos da sua profissão e sua
paciência. Então, tirou o pó de uma ideia guardada muito tempo atrás: Certo dia
Pedro, seu amigo, propôs que conhecessem esse mundão de meu Deus juntos, pois
era desejo reprimido de ambos e a amizade multiplicaria as alegrias ainda mais.
Mas Mariana, temerosa, não quis. Mudar não era fácil, dar asas a um sonho era
mais assustador ainda.
Agora
que começara a faxina dentro de si, não via porque não fazer isso. Suas obrigações
e aquilo que considerava prioridades estavam mudando; ela própria já não era
mais a mesma do início desta história. A vida é assim: Levamos muito tempo até
decidir mudar e, tomada à decisão, mudamos mais rápido do que imaginamos.
Mariana
poderia conversar com Pedro e descobrir se ele tinha o mesmo interesse de
antes, seria prazeroso ter companhia na viagem. Caso contrário, seu interesse mesmo
bastava. Estava empolgada, sentia que esta era a decisão mais importante de sua
vida em muitos anos. E por isso mesmo, era a escolha correta. Poderia não
aprender a cozinhar as coisas mais deliciosas que existem, mas certamente aprenderia
receitas diferentes e, apenas isto já valia a pena.
Sentia
um turbilhão de sentimentos dentro do seu coração, era uma festa inesquecível.
Euforia, alegria, paz, medo, insegurança, coragem e amor dançavam no ritmo de
sua pulsação. Sabia que todos estes e outros mais a acompanhariam em sua
jornada e que isto era normal. Bastava dar mais importância a alguns (que
compreendiam seus sonhos) e não esquecer os outros, afinal todos se faziam necessários
para o sucesso de sua mudança.
Ela
não tinha mais receio da desilusão, não havia mais espaço para esta em seu
coração. Se um dia não houvesse alternativa e ela chegasse de malas prontas,
tudo bem. Mariana a acolheria por um
tempo, mas até lá tinha muitas coisas para vivenciar. Pegou o telefone e este
chamou duas vezes antes de alguém atender.
-
Alô?
-
Pedro? Oi, é a Mari. Precisamos conversar, tenho muita coisa para te contar.
Mariana
não estava mais perdida, mas ainda tinha muita bagunça para organizar. Iniciada
a mudança interna, aqui fora ainda havia as malas parra arrumar.
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