24 de mai. de 2014

Intimidade


                Respirações ofegantes. Nús. Suados. Entregues. Deitaram-se um de frente para o outro e apenas enxergaram-se.
                Ela notou que seu cabelo, antes tão rebelde, não possuía mais vida. Que o toque das suas mãos, sempre tão firme, perdera a certeza. Que o sorriso dele, por mais esforçado que  fosse, não era capaz de esconder sua tristeza. Ele também percebeu mudanças nela.  Seus olhos, acostumados a lhe mostrar a direção, agora estavam perdidos, sem rumo. Sua pele, sempre tão viçosa, estava opaca. Nem a sua respiração era a mesma – não havia mais calma, algo angustiava seu peito.
                Algo havia mudado isto era claro. Mas nenhum dos dois ousava tocar no assunto. Primeiro, por negação; depois por medo e, por último, para não se magoarem. Mas fazia tempo (quanto?) que seus caminhos não conduziam mais ao mesmo lugar. Ele não esquentava o café dela. Ela não lhe mandava mensagens. Ele não perguntava sobre o livro que ela lia. Ela não questionava com quem ele saia.
                Assim, foram se distanciando e apenas a noite os unia. Sob a escuridão trocavam abraços, beijos, carinhos e tentavam driblar o vão que se impunha rasante entre eles. Mas não houve trégua. A lacuna só aumentava com suas tentativas estúpidas de entrosamento. O assunto podia ser ótimo, o local também, até as intenções podiam ser as melhores possíveis, mas quando algo muda dentro de nós, somos obrigados a mudar aqui fora também.
                Naquele momento não se falaram nem se mexeram. Apenas trocaram longos instantes de intimidade. Enxergaram-se. Não sua aparência física e traços vulgares, mas a alma um do outro, o que havia de mais profundo escondido em um olhar. Sentiram, então, algo que não sentiam fazia tempo: Que naquele instante eles eram um só e nada mais importava. Não havia espaço para dúvidas. Uma sensação de serenidade os dominou.
                Beijaram-se apaixonadamente ao pé da porta e trocaram um longo olhar afetuoso de velhos amigos. Atravessaram a rua e nunca mais se viram.


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