Desde
pequenos recebemos incontáveis conselhos e dicas de nossos pais: “Nunca se
esqueça de dizer obrigado, por favor e com licença”, “Não faça para os outros o
que não gostaria que fizessem para você”, “ Respeite os mais velhos”, “Seus
pais sempre irão querer o melhor para você”. Alguns são difíceis de aceitar e
mais ainda de praticar. São responsáveis por brigas, punições, questionamentos
sem fins e noites de insônia. Porém, na grande maioria das vezes, eles nos
guiam não só na infância, mas a vida toda.
Crescemos,
amadurecemos e entendemos –nem sempre da maneira mais fácil- aquilo que nossos
pais quiseram nos ensinar. Compreendemos as escolhas que nos pareceram duvidosas;
descobrimos a coragem por trás de opções aparentemente simples; enxergamos as renúncias
noutro lado do caminho escolhido. Ufa! Ainda bem que escolheram por nós.
Mas
essa crônica não vem falar da sabedoria e doação presente em cada escolha e
conselho de nossos pais. Ao contrário: Vem adaptar um de seus mais antigos
chavões “Não fale com estranhos”. Quem nunca ouviu isso de seus velhos? Assim
que começamos a frequentar a escola e damos nossos primeiros passos sozinhos, somos
logo advertidos a não dar papo a desconhecidos.
Até
aí tudo bem. Todos estão a par do número de pessoas perigosas e mal
intencionadas que se escondem atrás de sorrisos brancos e expressões afetuosas
dia após dia. Mas venhamos e convenhamos, é quase impossível exigir isso dos
pequenos atualmente. A não ser que seu filho seja autodidata, viva recluso à casa
e não possua convívio com a internet , telefones ou janelas.
Vivemos
num tempo em que tudo acontece muito rapidamente: O primeiro celular antes dos
oito anos, o primeiro perfil em uma rede social antes dos dez, a independência
requisitada cada vez mais cedo. As razões para esses fatores variam da
necessidade por parte dos pais, cada vez mais atribulados por trabalho e stress,
de se comunicar e receber informações de seus rebentos; à inserção tecnológica
que acontece cada vez mais cedo nas novas gerações. Além é claro, das mudanças
de paradigma que a sociedade sofreu e sofre, desde os anos cinquenta.
Num
mundo repleto de informação e possibilidades é retrógrado e insensato, pedir
que as crianças não se comuniquem com estranhos. Restritas a brincar e crescer
dentro de pátios e grades, a internet por vezes se torna um passatempo interessante
e, sinceramente, somos todos estranhos na rede. Omitimos informações,
compartilhamos o que nos convém , mudamos fatos, alteramos a ordem das coisas e
somos quem bem entendemos. E, nem por isso, somos mal feitores ou maus-caracteres.
É
certo que existem pessoas ruins na internet ou nas ruas, mas nem todos os
estranhos são negativos. Muitas vezes nosso melhor amigo era até então, um
desconhecido, quando concedemos uma brecha para aproximação. Tantas outras
vezes não foram às pessoas próximas que nos estenderam a mão e, sim quem estava
distante. Não podemos nem devemos confiar em qualquer um que nos apresenta um
sorriso ou um cumprimento, mas se não dermos chances ao desconhecido estamos
fadados à mediocridade.
Não
é necessário que as crianças confidenciem seus endereços, telefones e informações
pessoais para estranhos. Para ensinar isso é que serve a educação provinda dos
pais. Porém, virar a cara e desviar o olhar de tudo e todos que não nos são
habituais não é proteger-se. É isolar-se. E tanta coisa boa vem do
desconhecido. Amizades verdadeiras, ajudas indispensáveis, afeto quando
necessário – e quando não também, aprendizados de vida e lições importantes.
Falar
com estranhos pode ser ruim, mas pode ser bom também. Ajuda a desenvolver a
inteligência e o discernimento da criança, destrói preconceitos e fomenta a
relação de confiança com os pais quando não é algo escondido. Por isso o
conselho deveria ser “Fale com estranhos, dê uma chance a quem você não
conhece, mas faça isso com cautela e prudência”. E, com essa relação de
sinceridade, os pequenos seriam preparados melhor para o que os cerca: O
desconhecido.

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