Sabe qual é
uma das melhores coisas das férias? A despeito de acordar tarde, saber-se feliz
por não ter de trabalhar amanhã e receber o seu sacrificado dinheirinho pelo
qual trabalhou doze longos meses para merecer; é: Desprender-se do relógio.
Bom mesmo é
não saber o que fazer daqui à uma hora, poder decidir com calma o que quer
almoçar, qual programa fará à tarde (se visitará um amigo distante, assistirá
os episódios perdidos de sua série favorita ou dormirá o tempo inteiro) e se
reinventar para a noite. E na manhã
seguinte abrir os olhos ainda sonolentos, mirar o despertador e pensar “hoje
não”.
Desregrar-se
da rotina. Esquecer os horários. Esquecer até mesmo qual dia da semana é hoje.
Permitir-se descansar, descobrir, desabrochar. Tomar uma cerveja gelada às dez
da manhã e almoçar às duas da tarde. Sem
consciência pesada, sem dever satisfações. Fazer daquele senhor sério, de
óculos de fundo de garrafa, chamado tempo, seu convidado mais ilustre e
recepcioná-lo com a menina de longas tranças e vestido rodeado, que atende pelo
nome de imaginação.
Mas nem todos
são assim. Alguns são escravos do relógio, sempre serão. Não importa se têm uma semana ou um mês de
férias; sua maior alegria (pensam assim) está no compromisso marcado, no
horário registrado na agenda. São pessoas apressadas e previsíveis. Aquele tipo
que quando está no cinema conta os minutos para o final surpreendente do filme
e, depois que passa, arrepende-se por não ter prestado atenção aos detalhes do
enredo. Aqueles que apressam a família
inteira para um evento e, ao chegar lá, anseiam para que acabe logo e possam
retornar cedo para casa.
São pessoas
arredias. Seu tempo é precioso demais para ser desperdiçado com qualquer um. As
férias são um suplício, uma obrigação. Oram para que apareça um passatempo
interessante ou uma ocupação para seus dias. Temem o ócio. Temem ficarem sem
nada para fazer a ponto de encontrarem sua solidão. De não terem para onde
correr ou se esconder. A solidão os deflagraria ali – sozinhos, inquietos, reféns
de sua própria companhia. Seriam obrigados a enxergarem-se, seus defeitos e
virtudes, exageros e faltas, medos e sonhos.
Têm medo do
que podem descobrir. A realidade por vezes é cruel. Talvez estejam mesmos
sozinhos; talvez seus sonhos tenham ficado para trás, talvez a pressa não leve
a lugar nenhum afinal. Aonde chegar? O
final dessa jornada todos nós já conhecemos e ninguém (em sã consciência) pretende
encurtá-la. Homens sempre apressados não têm paz de espírito e roubam a paz de
sua família também. Passam a vida a fugir e esquecem-se de viver.
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