5 de fev. de 2014

Quando o fim não é belo

Humanless | via Facebook 


Sabe qual é uma das melhores coisas das férias? A despeito de acordar tarde, saber-se feliz por não ter de trabalhar amanhã e receber o seu sacrificado dinheirinho pelo qual trabalhou doze longos meses para merecer; é: Desprender-se do relógio.
Bom mesmo é não saber o que fazer daqui à uma hora, poder decidir com calma o que quer almoçar, qual programa fará à tarde (se visitará um amigo distante, assistirá os episódios perdidos de sua série favorita ou dormirá o tempo inteiro) e se reinventar para a noite.  E na manhã seguinte abrir os olhos ainda sonolentos, mirar o despertador e pensar “hoje não”.
Desregrar-se da rotina. Esquecer os horários. Esquecer até mesmo qual dia da semana é hoje. Permitir-se descansar, descobrir, desabrochar. Tomar uma cerveja gelada às dez da manhã e almoçar às duas da tarde.  Sem consciência pesada, sem dever satisfações. Fazer daquele senhor sério, de óculos de fundo de garrafa, chamado tempo, seu convidado mais ilustre e recepcioná-lo com a menina de longas tranças e vestido rodeado, que atende pelo nome de imaginação.
Mas nem todos são assim. Alguns são escravos do relógio, sempre serão.  Não importa se têm uma semana ou um mês de férias; sua maior alegria (pensam assim) está no compromisso marcado, no horário registrado na agenda. São pessoas apressadas e previsíveis. Aquele tipo que quando está no cinema conta os minutos para o final surpreendente do filme e, depois que passa, arrepende-se por não ter prestado atenção aos detalhes do enredo.  Aqueles que apressam a família inteira para um evento e, ao chegar lá, anseiam para que acabe logo e possam retornar cedo para casa.
São pessoas arredias. Seu tempo é precioso demais para ser desperdiçado com qualquer um. As férias são um suplício, uma obrigação. Oram para que apareça um passatempo interessante ou uma ocupação para seus dias. Temem o ócio. Temem ficarem sem nada para fazer a ponto de encontrarem sua solidão. De não terem para onde correr ou se esconder. A solidão os deflagraria ali – sozinhos, inquietos, reféns de sua própria companhia. Seriam obrigados a enxergarem-se, seus defeitos e virtudes, exageros e faltas, medos e sonhos.
Têm medo do que podem descobrir. A realidade por vezes é cruel. Talvez estejam mesmos sozinhos; talvez seus sonhos tenham ficado para trás, talvez a pressa não leve a lugar nenhum afinal. Aonde chegar?  O final dessa jornada todos nós já conhecemos e ninguém (em sã consciência) pretende encurtá-la. Homens sempre apressados não têm paz de espírito e roubam a paz de sua família também. Passam a vida a fugir e esquecem-se de viver.
 

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