Fazia
uma manhã bonita. O sol brincava de pique-esconde com as nuvens, o céu era de
um azul fora do normal. Os pássaros cantavam alegres à vida. Tudo seguia
tranquilo, como se a pressão da presença do tempo fosse inútil naquele lugar,
naquela manhã. Nem os relógios anunciavam tic-tacs – que ultraje seria romper
com a harmonia!
Ela
dobrou uma esquina qualquer e, então, ouviu o vento sussurrar em seu ouvido.
Não estava sozinha. Olhou para os lados e não avistou ninguém. Sentiu seu coração
acelerar ansioso para logo em seguida, acalmar por instinto. Era ele. Disso
tinha certeza. Suas emoções só oscilavam assim com a sua presença.
Mas
onde estava? Deu uma volta em torno de si mesma e não enxergou ninguém. Sequer
uma sombra. Era muito cedo, quase nunca alguém passava por lá nesse horário.
Questionou sua certeza, mas não sentiu medo. Era ele ou então não era ninguém.
E tinha ouvido. Sua voz grave, inconfundível, diluída no vento a acordar-lhe os
ouvidos.
Sim.
Aquela mesma voz que declamava poesias com candura, que ganhava efeito e cena
sobre tensão, que lhe cortejava os ouvidos com as mais sinceras indecências e ficava
levemente constrangida ao entregar suas inabilidades para o canto. Sua voz que
era como uma ordem para ela. Um som natural. Algo a que estava predestinada.
Sentiu
uma brisa morna e viu as folhas da árvore a sua direita balançarem. Ninguém. Mas
sabia que ele estava por ali. Imaginou seu olhar a fulminá-la. Uma mistura de
ódio e desejo. Algo tão intenso que a incomodava. Conhecia o brilho daquele
olhar, seus olhos pretos cintilavam frios como a noite. Ignoravam o mundo a sua
volta. Rompiam com facilidade a barreira de sua pele e buscavam a todo custo desvendar
seus segredos. Tinha medo do olhar dele. Mas não sabia fugir. Não podia fugir.
Precisava encará-lo, guardar todo o momento que pudesse.
Desejava
poder observá-lo só uma vez mais. Estremecer com seu sorriso, arrepiar-se com
seu toque. Lucia se sentiu tonta. Estava parada no sol a mais minutos do que
percebera. Sentou-se no meio-fio. Recobrou o fôlego e voltou a imaginar.
Recordou-se da última vez em que o viu. Nunca vira tanta convicção e sonhos em
uma só pessoa. Em seu rosto quase quadrado não havia sinal de dúvidas. Não
havia espaço para incertezas. Ele não a consultou, porém já havia tomado sua
decisão. Iria partir, precisava arriscar.
Ignorou
seus pedidos insistentes de paciência, de calma. Ele não tinha tempo pra
perder, também não tinha tempo pra buscar. Só precisava seguir e ela não
poderia ir com ele. Tinham uma conexão forte, isto era claro, mas não recíproca.
Lucia soube que o perderia e o beijou pela última vez com todo o resto de suas
esperanças infantis. Um beijo de tirar o fôlego, um momento para tocar a alma,
uma rendição.
E
passaram-se seis longos meses e ela nunca mais o viu a não ser em suas
lembranças e nos pesadelos que voltavam noite após noite para atormentá-la. Nenhuma
carta, nem um email, nem um postal. Ele desaparecerá no mundo e parte dela
também. Percebeu, então, que estava atrasada para o trabalho e seguiu a
caminhar ainda cambaleante. Agora sua rotina era sua sina.
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